Relato do IronMan - por Gleise Botelho PDF Imprimir E-mail

Completar um Ironman não é uma tarefa fácil, pois nadar 3.800 metros, pedalar 180 kilômetros e ainda correr 42 km, tudo em um só dia, só mesmo sendo de ferro!

A ilha de Kona no Havaí onde é realizado o campeonato mundial  faz com que esse  desafio torne-se  quase que sobre humano.   O calor é devastador e o vento torna a etapa de ciclismo bastante árdua. A maioria dos triatletas costuma estipular uma meta, um limite de tempo. Eu não, apenas estava interessada em conseguir cruzar a linha de chegada  tão sonhada na Alli Drive. Meu foco era fazer uma prova regular e atacar na corrida que costuma ser meu ponto forte. Mas não dá pra prever nada em uma prova como essa.  

 

Enfim chega a grande hora, acordei às 04h30 para tomar meu café da manhã e realizar meu ritual pré-prova.  Não dá para conter a empolgação e a ansiedade nessa hora. Tudo pronto para a largada no Kailua Pier. O dia estava nascendo, lindo! Aproveitei esse momento para concentrar e agradecer pela oportunidade de estar ali, com os melhores do mundo no esporte que pratico. Realmente não tem como não se emocionar nessa hora. Não só pelo fato de estar ali mas pelo tanto que passei  e abri mão para me preparar para essa prova.

BUUUM! Hora de iniciar as braçadas!

 

A natação foi difícil, mas incrivelmente agradável, pois a cor da água e os peixinhos coloridos me encantaram. Saí da água com 1h14m. Costumo ser mais rápida nessa etapa, mas vamos que vamos.  E a transição foi rápida, me equipei, passei protetor e saí em disparada para a minha bike. E era muiiita bicicleta antes de chegar na minha! Que delírio sair para pedalar ali, paisagens vulcânicas maravilhosas e até o km 140 eu estava em êxtase total.  Mas como um ironman é sempre um ironman, lá vem aquele vento e com tuuudo. A impressão que dá é que a bicicleta vai decolar, fiquei com medo e um monte de pensamento negativo passou pela minha cabeça que estava fervendo de tão quente. Passei a beber menos água, pois não conseguia tirar as mãos da bicicleta com medo do vento me levar.  E completar a etapa do ciclismo com 6h15 foi satisfatório. Sempre fico com aquele sentimento de que podia ter ido melhor, mas a situação saiu do meu controle com aquela ventania toda  e um sobe e desce sem fim.  Mas chegou ao fim e iniciei a etapa da corrida, minha favorita! Pensei: “Beleza, agora é só alegria!, Kona é minha!”. Ledo engano, iniciei a corrida com bastante sede e sabia que jamais devemos sentir sede, pois a sede já é um péssimo sinal. Nada me derrota, vou chegar nem que seja me arrastando. E  comecei minha luta interna da minha mente versus meu corpo. 

 

Foram 42 km insanos debaixo de um calor de aproximadamente 35 graus, minha mente tentava me sabotar, mas nesse momento uma fortaleza se constrói e fui vencendo quilômetro por quilômetro. Aquela chegada era meu sonho e eu iria cruzá-la de qualquer maneira. De repente, no km 30 ao invés de acontecer a tão temida barreira dos trinta, momento no qual o maratonista tende a sentir todo o cansaço, eu experimentei o efeito reverso, me senti muito bem e forte. Passei a correr mais rápido movida pela alegria de estar ali e querer chegar, minha mente dominava meu sofrimento e levava meu corpo pra frente e numa velocidade que nem eu acreditava! Quando faltavam apenas dois quilômetros, bateu uma alegria louca, fiquei rindo sozinha, totalmente emocionada. Finalmente avistei o corredor da chegada com aquela torcida que me dava arrepios, abri minha bandeira do Brasil e a platéia vibrou com uma alegria que tomou meu corpo todo, era a  Finish Line, após 3h54m de corrida.

 

Finalmente! Esse momento ficará guardado com todo carinho nas minhas melhores recordações, era muita emoção à flor da pele. E foi quando o locutor anunciou: “Gleise Botelho from Brazil: You are an Ironman!”. Aí não tem mais mulher de ferro, a gente se derrete de tanta adrenalina e não deu pra conter as lágrimas. Eu sobrevivi e conquistei  Kona! Ou será que Kona me conquistou? Não importa, só tenho mesmo a agradecer a minha família que sempre me apoiou, meu marido e técnico, meus lindos filhos que torcem demais por mim, meus amigos que viveram o sonho comigo durante os treinos, a torcida brasileira e  a Clínica  Salute que me apoiou e acompanhou com carinho e sabedoria o período de treinamento e de competição.   MAHALO!!! ( obrigada em havainao)

 

 

“Anything is possible” – mantra do Ironman.

 

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